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Porque razão os homossexuais hesitam em fazer o teste para o VIH?
De acordo com as declarações de investigadores na edição de Novembro International Journal of STD and AIDS, os homossexuais e bissexuais australianos que não fizeram o teste para o VIH recentemente acreditam que não correram riscos suficientes para justificar um teste, ou que o impacto psicológico de um diagnóstico positivo seria demasiado grande. Os investigadores recomendam intervenções de promoção de saúde que ajudem os homens a reavaliar as suas crenças sobre os testes para o VIH.
Os psicólogos Ron Gold e Gery Karantzas recrutaram 97 homens em bares gays em Melboune. Para entrarem no estudo, os homens tinham de ter tido relações sexuais com outros homens, não tendo sido testados para o VIH nos últimos quatro anos, nunca tendo recebido um diagnóstico positivo.
Poucos participantes tinham intenção de fazer o teste nos próximos meses. Tendencialmente tinham ligações fortes à comunidade homossexual e, dois quintos, tinham tido relações sexuais anais desprotegidas com mais de um parceiro no último ano.
Os participantes preencheram um questionário que, no primeiro grupo de perguntas, pedia que imaginassem que alguém os tinha aconselhado a fazer o teste para o VIH nos próximos dez dias e que identificassem o tipo de pensamentos que esta sugestão gerava na suas mentes.
Os participantes declararam cerca de oito pensamentos cada um. Os mais comuns, segundo mais de dois terços do grupo, foram:
Os investigadores usaram uma técnica estatística (Análise Factorial) que analisava as correlações entre os diferentes pensamentos de forma a organizá-los em grupos ('factores'). Tendo-se destacado cinco factores.
O primeiro, e o mais importante, agrupava um número de problemas percepcionados a longo prazo associados à seropositividade. O mais importante foi: “Se eu descobrir que sou seropositivo, isso pode afectar a minha relação com o meu namorado/parceiro. É melhor se eu não descobrir”. Outro pensamento realçava o facto de o namorado poder aperceber-se que os seu parceiro não tinha sido monogâmico. Muitos outros pensamentos incluíam a frase: “É melhor se eu não descobrir” e mencionavam mudanças na vida sexual, segregação dos amigos, depressão e stress.
O segundo factor agrupava preocupações sobre a confidencialidade do teste para o VIH. A declaração mais importante no grupo foi: “Não quero aparecer numa lista como tendo VIH. Não estou seguro que o resultado do teste se mantenha confidencial.” Um afirmação similar sobre aparecer numa lista das pessoas que tinham feito o teste também foi muito frequente.
O terceiro factor reunia todos os pensamentos sobre problemas a curto prazo associados ao teste para o VIH, incluindo o receio de agulhas e a falta de tempo.
O quarto factor juntava os pensamentos que sugeriam que o teste para o VIH é desnecessário. Um pensamento sugeria que o inquirido não tinha corrido muitos riscos, outro que o VIH é raro no círculo social do inquirido, e ainda outro em que o inquirido não tinha sintomas de infecção pelo VIH.
O último factor que foi por si só suficientemente importante para permanecer na análise inclui somente uma afirmação: “Não há grande urgência em fazer o teste. Fá-lo-ei eventualmente, mas não há pressa,”
Os homens que tiveram relações sexuais anais desprotegidas com mais de um parceiro no último ano tinham mais tendência para apresentar um número maior de pensamentos (média de 11), que os homens que correram poucos riscos sexuais. Este grupo tinha também taxas mais altas de testagem que o resto da amostra, o que os investigadores acreditam significar que estes tiveram alguma consciência do nível de risco.
Não obstante, como todos os outros no inquérito, estes homens não fizeram nenhum teste nos últimos quatro anos e o seu comportamento poderá significar que têm mais razões para recear um resultado positivo. Os investigadores sugerem que muitos dos pensamentos destes homens são na realidade racionalizações e que o risco maior “produz uma necessidade de usar todas os meios plausíveis” para explicar a decisão de não fazer o teste.
Ao analisar estas descobertas, Gold e Karantzas crêem que, apesar do acesso a mais informação factual sobre os testes e sobre as mudanças nos seus procedimentos pudesse encorajar alguns homens a fazerem o teste com mais frequência, isto não alteraria o comportamento de muitas pessoas.
Chamaram ainda a atenção para a 'Teoria da Perspectiva' usada pelos psicólogos. Esta preconiza que os ganhos e perdas hipotéticos não são pesados equitativamente, isto é, as perdas ganham proporções maiores que os ganhos, o que conduz à decisão de adiar a decisão ou de a deixar imutável.
Gold e Karantzas pensam ser possível desenhar intervenções que possam ajudar os homens a perceber que os seus pensamentos são na realidade racionalizações. Em psicologia, uma racionalização é um mecanismo de defesa através do qual a sua verdadeira motivação é dissimulada explicando as suas acções e sentimentos de uma forma que não seja ameaçadora.
Uma possível intervenção envolveria apresentar uma lista aos homens com a justificações para não fazer o teste, perguntar-lhes em quais se revêem, e pedir-lhes então que avaliem cuidadosamente a validade de cada uma delas.
Os autores também sugerem que mais do que tentar em vão que os homens vejam os benefícios do teste, os promotores de saúde podem focar-se nas 'perdas'. Contudo, devem tentar alterar o tipo de perdas em que os homens se concentram – não as desvantagens do teste, mas sim as desvantagens de não se terem testado mais cedo.
Os promotores de saúde podem, por exemplo, pedir aos homens homossexuais que imaginem uma época no futuro em que, não tendo sido testados, descubram que estão infectados há já algum tempo, estando agora impossibilitados de usufruir dos benefícios totais de um tratamento iniciado mais cedo. Os autores afirmam que focar-se no 'arrependimento precoce' desta maneira, pode ser uma motivação poderosa para outro tipo de comportamentos protectores da saúde.
Referência
Gold RS and Karantzas G. Thought processes associated with reluctance in gay men to be tested for HIV. International Journal of STD & AIDS 19: 775-79, 2008.
Tradução
GAT - Grupo Português de Activista sobre Tratamentos VIH/SIDA
Os psicólogos Ron Gold e Gery Karantzas recrutaram 97 homens em bares gays em Melboune. Para entrarem no estudo, os homens tinham de ter tido relações sexuais com outros homens, não tendo sido testados para o VIH nos últimos quatro anos, nunca tendo recebido um diagnóstico positivo.
Poucos participantes tinham intenção de fazer o teste nos próximos meses. Tendencialmente tinham ligações fortes à comunidade homossexual e, dois quintos, tinham tido relações sexuais anais desprotegidas com mais de um parceiro no último ano.
Os participantes preencheram um questionário que, no primeiro grupo de perguntas, pedia que imaginassem que alguém os tinha aconselhado a fazer o teste para o VIH nos próximos dez dias e que identificassem o tipo de pensamentos que esta sugestão gerava na suas mentes.
Os participantes declararam cerca de oito pensamentos cada um. Os mais comuns, segundo mais de dois terços do grupo, foram:
- “Não preciso de um teste, porque não corri nenhum/muitos riscos, por isso tenho a certeza que não tenho VIH”.
- “Não preciso de um teste, porque não tive nenhum sintoma que pudesse sugerir que eu tenha VIH”.
Os investigadores usaram uma técnica estatística (Análise Factorial) que analisava as correlações entre os diferentes pensamentos de forma a organizá-los em grupos ('factores'). Tendo-se destacado cinco factores.
O primeiro, e o mais importante, agrupava um número de problemas percepcionados a longo prazo associados à seropositividade. O mais importante foi: “Se eu descobrir que sou seropositivo, isso pode afectar a minha relação com o meu namorado/parceiro. É melhor se eu não descobrir”. Outro pensamento realçava o facto de o namorado poder aperceber-se que os seu parceiro não tinha sido monogâmico. Muitos outros pensamentos incluíam a frase: “É melhor se eu não descobrir” e mencionavam mudanças na vida sexual, segregação dos amigos, depressão e stress.
O segundo factor agrupava preocupações sobre a confidencialidade do teste para o VIH. A declaração mais importante no grupo foi: “Não quero aparecer numa lista como tendo VIH. Não estou seguro que o resultado do teste se mantenha confidencial.” Um afirmação similar sobre aparecer numa lista das pessoas que tinham feito o teste também foi muito frequente.
O terceiro factor reunia todos os pensamentos sobre problemas a curto prazo associados ao teste para o VIH, incluindo o receio de agulhas e a falta de tempo.
O quarto factor juntava os pensamentos que sugeriam que o teste para o VIH é desnecessário. Um pensamento sugeria que o inquirido não tinha corrido muitos riscos, outro que o VIH é raro no círculo social do inquirido, e ainda outro em que o inquirido não tinha sintomas de infecção pelo VIH.
O último factor que foi por si só suficientemente importante para permanecer na análise inclui somente uma afirmação: “Não há grande urgência em fazer o teste. Fá-lo-ei eventualmente, mas não há pressa,”
Os homens que tiveram relações sexuais anais desprotegidas com mais de um parceiro no último ano tinham mais tendência para apresentar um número maior de pensamentos (média de 11), que os homens que correram poucos riscos sexuais. Este grupo tinha também taxas mais altas de testagem que o resto da amostra, o que os investigadores acreditam significar que estes tiveram alguma consciência do nível de risco.
Não obstante, como todos os outros no inquérito, estes homens não fizeram nenhum teste nos últimos quatro anos e o seu comportamento poderá significar que têm mais razões para recear um resultado positivo. Os investigadores sugerem que muitos dos pensamentos destes homens são na realidade racionalizações e que o risco maior “produz uma necessidade de usar todas os meios plausíveis” para explicar a decisão de não fazer o teste.
Ao analisar estas descobertas, Gold e Karantzas crêem que, apesar do acesso a mais informação factual sobre os testes e sobre as mudanças nos seus procedimentos pudesse encorajar alguns homens a fazerem o teste com mais frequência, isto não alteraria o comportamento de muitas pessoas.
Chamaram ainda a atenção para a 'Teoria da Perspectiva' usada pelos psicólogos. Esta preconiza que os ganhos e perdas hipotéticos não são pesados equitativamente, isto é, as perdas ganham proporções maiores que os ganhos, o que conduz à decisão de adiar a decisão ou de a deixar imutável.
Gold e Karantzas pensam ser possível desenhar intervenções que possam ajudar os homens a perceber que os seus pensamentos são na realidade racionalizações. Em psicologia, uma racionalização é um mecanismo de defesa através do qual a sua verdadeira motivação é dissimulada explicando as suas acções e sentimentos de uma forma que não seja ameaçadora.
Uma possível intervenção envolveria apresentar uma lista aos homens com a justificações para não fazer o teste, perguntar-lhes em quais se revêem, e pedir-lhes então que avaliem cuidadosamente a validade de cada uma delas.
Os autores também sugerem que mais do que tentar em vão que os homens vejam os benefícios do teste, os promotores de saúde podem focar-se nas 'perdas'. Contudo, devem tentar alterar o tipo de perdas em que os homens se concentram – não as desvantagens do teste, mas sim as desvantagens de não se terem testado mais cedo.
Os promotores de saúde podem, por exemplo, pedir aos homens homossexuais que imaginem uma época no futuro em que, não tendo sido testados, descubram que estão infectados há já algum tempo, estando agora impossibilitados de usufruir dos benefícios totais de um tratamento iniciado mais cedo. Os autores afirmam que focar-se no 'arrependimento precoce' desta maneira, pode ser uma motivação poderosa para outro tipo de comportamentos protectores da saúde.
Referência
Gold RS and Karantzas G. Thought processes associated with reluctance in gay men to be tested for HIV. International Journal of STD & AIDS 19: 775-79, 2008.
Tradução
GAT - Grupo Português de Activista sobre Tratamentos VIH/SIDA
