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Elevada taxa de mortalidade em crianças zambianas infectadas pelo VIH durante o período anterior à disponibilização da terapêutica anti-retroviral
Tom Egwang, Wednesday, September 24, 2008
De acordo com os resultados de um estudo prospectivo publicado em Setembro, na 15ª edição da Clinical Infectious Diseases, durante o período anterior à disponibilização da terapêutica anti-retroviral (TAR), a taxa de mortalidade de crianças zambianas infectadas pelo VIH era de 7 a 25 vezes superior à taxa de mortalidade em crianças não infectadas pelo VIH.

De forma a resolver este problema, investigadores dos Estados Unidos, do Reino Unido e da Zâmbia avaliaram as taxas de sobrevivência, os factores de risco mortais e as circunstâncias em que ocorreram óbitos nas crianças zambianas a partir dos nove meses de idade, de acordo com a existência da infecção pelo VIH ou da exposição ao vírus antes da TAR estar disponível.

Os relatórios provenientes de um reduzido número de estudos mostram que cerca de metade das crianças infectadas pelo VIH não chegam ao seu segundo ano de vida. No entanto, há uma escassez de estudos longitudinais sobre as que sobrevivem, bem como os factores de risco de mortalidade das crianças infectadas pelo VIH na África Subsariana, antes da introdução da TAR.

Na África Subsariana, cerca de um terço das crianças infectadas pelo VIH não está a fazer a TAR e isso reflecte-se na elevada taxa de mortalidade. A dificuldade no acesso aos cuidados de saúde, a má nutrição e a exposição a outras infecções são factores importantes que têm sido associados às elevadas taxas de mortalidade existentes.

O estudo decorreu numa clínica pública em Lusaka, na Zâmbia. A população do estudo foi constituída por crianças seropositivas para o VIH1, com idades compreendidas entre os dois e os oito meses e uma amostra com crianças seronegativas; ambos os grupos foram atendidos na sequência do programa de vacinação infantil.

Este estudo fez parte de outro mais alargado, de carácter observacional, sobre a vacina do sarampo, para o qual foram recrutadas crianças com nove meses de idade. À entrada no estudo, as crianças foram submetidas a exame médico e foi preenchido um questionário padrão sobre as características demográficas e o historial médico.

As crianças foram distribuídas aleatoriamente para posterior acompanhamento um ou três meses após a vacinação. Pediu-se às mães para regressarem com as crianças 15 e 27 meses após a vacinação e para procurar assistência médica junto da equipa do estudo sempre que as crianças estivessem doentes. As visitas domiciliárias realizaram-se a cada três meses por um período de três anos. Foram efectuadas autópsias verbais de forma a identificar as causas específicas das mortes ocorridas.

O teste de despistagem foi realizado através da utilização de um teste de ELISA. A infecção pelo VIH em crianças seropositivas foi estabelecida através da detecção do ARN do VIH pelo método de PCR. Em cada visita agendada, foram medidos os níveis da hemoglobina e a percentagem de células CD4.

No início deste estudo, das 492 crianças elegíveis que foram vacinadas contra o sarampo aos nove meses, 127 (26%) eram seronegativas para o VIH, 292 (59%) eram seropositivas para o VIH mas não estavam infectadas e 73 (15%) estavam infectadas pelo VIH. Trinta e duas crianças (11%) que eram seropositivas, mas não estavam infectadas pelo VIH no início do estudo, foram-no durante o período de acompanhamento. Assim, 105 crianças (21% de todas as crianças estudadas) estavam infectadas pelo VIH durante parte do período de acompanhamento.

A mortalidade materna durante o período anterior à entrada no estudo era baixa nos três grupos de crianças. Em contrapartida, a mortalidade paterna era maior tanto entre as crianças seropositivas para o VIH mas que não estavam infectadas, como nas que estavam infectadas.

Entre as 492 crianças do estudo, ocorreram 56 mortes durante o período de acompanhamento que decorreu até aos três anos de idade. Trinta e nove por cento das 105 crianças infectadas pelo VIH morreram durante o período de estudo, em comparação com 5% das 260 crianças seropositivas, mas não infectadas pelo VIH e 1,6% das 127 crianças seronegativas.

As probabilidades de sobrevivência das crianças dos 9 aos 36 meses de idade foram estimadas em 52% nas infectadas pelo VIH, em 95% nas inicialmente seropositivas para o VIH1 mas não infectadas e em 98% nas seronegativas para o VIH.

As doenças mais comuns que contribuíram para as mortes foram: diarreia (em 61% dos casos), infecções agudas do tracto respiratório (em 49%) e desnutrição (em 39%). A tuberculose, a malária e a meningite contribuíram para a mortalidade, contudo, em menor escala.

Dois modelos estatísticos identificaram os factores de risco que foram, significativamente associados à mortalidade entre as crianças infectadas pelo VIH. Estes incluíram um histórico de uma visita clínica efectuada quatro semanas antes do início do estudo, nível de hemoglobina inferior a 8 g/dl e uma percentagem de células CD4 inferior a 15% também no início do estudo.

Este estudo longitudinal confirmou as elevadas taxas de mortalidade igualmente relatadas por estudos anteriores em crianças infectadas pelo VIH em locais com recursos limitados. Das crianças zambianas infectadas pelo VIH que estavam vivas aos nove meses de idade apenas cerca de metade sobreviveu até aos três anos.

Referência

Sutcliffe C.G. et al. Survival from 9 months of age among HIV-infected and uninfected Zambian children prior to the availability of antiretroviral therapy. Clinical Infectious Diseases 47:837–844, 2008.

Tradução
GAT - Grupo Português de Activista sobre Tratamentos VIH/SIDA